Pela lente do erotismo o artista baiano mira seu olhar para corpos masculinos e revela-se a si mesmo.

José Marçal de Jesus é o artista brasileiro mais visionário e radical de sua geração por muitos motivos. Seu trabalho de fotografia é multidisciplinar no que tange referências ululantes da alta costura em seus diversos momentos ao longo da história recente da moda, assim como do cinema, desde a Old Hollywood dos anos 20 e 30, passando por clássicos do gênero noir dos anos 40 até a fase festiva, colorida e ingênua de Hollywood e de um certo cinema europeu pré Nouvelle Vague que compreende os anos 50 e 60 do século passado. E tem mais. Junte-se a isso, outras tantas referências e um profundo trabalho de pesquisa que envolve sexualidade, gênero e psicanálise e adicione gêneros musicais que compreendem as raízes negras do jazz e do blues, passando pela origem do samba que nasceu na Bahia, assim como José. José, esse que, em sua saga nômade, iniciada aos 16 anos de idade, quando, sozinho, decide deixar para trás o interior da Bahia rumo a efervescência do Rio de Janeiro em meados dos anos 1990, foi introduzido a uma outra extensão no tempo e espaço da negritude do samba e do blues, no caso a House Music e, por conseguinte, a cultura clubber. E é através desse portal mágico da pós-modernidade que o menino José começa a moldar as suas suas percepções de mundo trazendo todas as novidades para o seu olhar, ainda em construção, que posteriormente encontraria em Berlim, a capital alemã que é “pobre, porém sexy”, o seu melhor filtro; o da liberdade.

Fotografia de José Marçal de Jesus

As fotografias de José Marçal de Jesus estão para além de nomenclaturas acadêmicas, citações rasteiras ou modismos passageiros. Sua arte é atemporal justamente porque lembra tudo e não se parece com nada. É única e fecha-as em si. Irreprodutivel e incopiavel. Sua assinatura tem sangue, tem lágrimas, tem semem. Pulsa sexo. Pulsa vida. Pulsa raiva. Pulsa amor. Pulsa ternura. Pulsa em vermelhos e azuis. Quem por ele se deixa fotografa se revelará para além de si mesmo, porque quando fotografa um outro alguém, José fotografa o melhor do outro nunca antes visto. Um artista enorme ainda incompreendido, porém comprometido com sua verdade e sua fé. Nada mais é preciso, quando tudo se tem.


Sabrina Fidalgo é uma multipremiada diretora e roteirista carioca. Foi apontada pela publicação americana BUSTLE em oitavo lugar como uma das cineastas mais promissoras ao redor do mundo numa lista com 36 diretoras internacionais. Estudou Artes-Cênicas na Uni-Rio, cinema e documentário na Escola de TV e Cinema de Munique (Alemanha) e cursou roteiro pela ABC Guionísta España na Universidade de Córdoba (Espanha). Seus filmes já foram exibidos em mais de 300 festivais no mundo. O media-metragem “Rainha” (2016) ganhou mais de 30 prêmios e foi selecionado para a mostra Perspectives do Festival de Rotterdam. Seu último curta “Alfazema” (2019) ganhou o troféu de Melhor Filme do Júri Popular do 29º Curta Cinema – Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro, foi duplamente premiado no 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e um dos curtas finalistas do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. Foi presidente do júri do 48º Festival de Gramado, se tornando a primeira mulher negra a ocupar esse posto. É colunista da Vogue Brasil, foi articulista do HuffPost Brasil e é colaboradora esporádica da coluna “Quadro Negro” da Folha de São Paulo.

Sabrina Fidalgo — um Novo Reinado

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